Coisas ruins acontecem
Pessoas boas também sofrem
Quando eu era adolescente fugia de pensamentos sobre a morte de meus pais. Só de imaginar a morte deles eu ficava desesperado e repreendia tais pensamentos (tá repreendido! Tá repreendido! Mil vezes tá repreendido!). A gente nunca sabe quando esse dia vai chegar, mas naturalmente queremos que seja o mais distante possível.
Meu pai, em 2017, apareceu com uma rouquidão que durou mais de 30 dias e não teve remédio caseiro que resolvesse ou atenuasse. Dessa forma resolveu ir ao médico e logo teve que fazer alguns exames. O médico que solicitou os exames, ao olhar os resultados de um desses exames, logo alertou e pediu brevidade para tomar providências. Disse que ele teria que fazer uma biópsia para saber se o tumor identificado na garganta era benigno ou maligno. Não me lembro mais de muitos detalhes desse momento, só lembro de estar presente no dia que meu pai foi submetido para retirar a amostra e que fui eu que levei essa amostra para o laboratório que iria analisar (a análise foi em um laboratório particular). Após esse episódio só lembro do dia que ele chegou em casa, após ir buscar o resultado, e se encostou na porta (não sei qual o motivo dele ter ido sozinho. Só sei que ele sempre resolveu as coisas dele e nunca nos pedia ajuda) com a voz embargada dizendo que estava com câncer. Cara! Essa foi a pior notícia que eu recebi na minha vida (até então)! Todos lá em casa ficaram sem chão. Desespero total! O que restava era correr atrás de resolver isso. E assim foi feito!
Em pouco tempo os exames, prévios para a cirurgia, solicitados estavam feitos e a cirurgia estava marcada (não se todos os exames foram pelo SUS, mas a cirurgia sim). Dr. Tércio, médico cirurgião de cabeça e pescoço, foi o responsável pela cirurgia e acompanhamento. Não me recordo a data da cirurgia, mas lembro que a recuperação de meu pai foi dentro do esperado e em um pouco mais de um mês ele estava bem. A sequela que ficou foi a voz rouca por ter afetado a corda vocal.
O médico deu “99% de cura” e disse que era muito difícil essa doença maldita retornar. Infelizmente, em 2020, meu pai percebeu uma alteração no pescoço, uma rigidez, na mesma direção do tumor anterior, só que do outro lado (esquerdo). Numa das idas para a consulta de acompanhamento (que vai ficando mais espaçado à medida que se distancia da data da cirurgia) ele relatou o que disse anteriormente. Por conta disso foi solicitado que fizesse um exame de imagem. Infelizmente esse exame diagnosticou o que a gente mais temia. O câncer tinha voltado! E nós estávamos vivendo aquele momento de dor novamente.
Não sei se tudo que poderia ser feito, foi feito. Não sei se algo poderia ter sido feito para o desfecho ser diferente. Mas o pior aconteceu! Veja! Nesse processo para tentar ver como seria o tratamento logo foi dito pelo mesmo médico, Dr. Tércio, que uma cirurgia não servia possível, pois o tumor, dessa vez, veio em torno a veia aorta. Logo, só restavam quimioterapia e radioterapia.
Ainda nesse processo de saber como seria esse tratamento é descoberto que meu pai tinha um problema cardíaco que, juntamente com a condição atual e a idade, tinha diminuído sua capacidade cardíaca. Por conta desse problema no coração fomos parar no Hospital Santa Isabel, em Salvador, local que ficamos alguns dias. Dias angustiantes e, por conclusão minha, percebi que os médicos não sabiam o que fazer. Passavam-se os dias e eles não chegavam com uma solução. Nesse meio de tempo a data para início da radioterapia se aproximava. E eu, assim como meu pai, estávamos preocupados com isso, pois nossa esperança era que a rádio fosse suficiente para acabar com o tumor. Por conta da demora e da data de início das sessões de rádio terapia, solicitamos a saída do hospital e, se não estou enganado, tivemos que assinar um termo de responsabilidade.
Fui várias vezes (quase todas as sessões de rádio) com ele para UNACON. Após findo essa etapa, mais uma notícia ruim foi dita. Ao retornar com os resultados de outros exames após as sessões de rádio o médico disse que o tumor não tinha reduzido de tamanho e, junto com os psicólogos da clínica, decretaram que meu estava entre cruz e a espada. Eu lembro que me chamaram para conversar em particular com os psicólogos e, dessa conversa, lembro que falaram para realizar os últimos desejos dele. Determinaram a morte!
Os dias que se seguiram foram horríveis. Meu pai nunca foi de demonstrar seus sentimentos, de dizer o que estava sentindo ou pensando. Então, não sei dizer como isso tudo foi para ele (entendo que foi horrível. Ele não queria morre!). A única pessoa com quem ele falava muita coisa do que estava sentindo, e essa não passava nada para mim, era a minha mãe. A doença foi avançando, as coisas foram piorando. Piorando ao ponto de morfina não servir mais para conter a dor que ele sentia.
Minhas irmãs, minha mãe e eu fizemos o que estava ao nosso alcance para tentar deixá-lo confortável. Fizemos o que podemos fazer, fizemos o que estava ao nosso alcance. Meu pai nos deixou antes da morte física. Alguns dias antes de falecer ele já tinha nos deixado. Horrível! Uma dor indescritível. Ninguém merece passar por isso. Sofrer tanto?! Meu pai não merecia morrer assim. Ele foi o primeiro amor, primeiro namorado de minha mãe. Você imagina como doeu para ela? E para nós, filhos, que acompanhamos tudo e ficamos com a esperança de um milagre até o último dia?
Na reta final fomos várias vezes para o hospital municipal da nossa cidade, pelo menos umas duas ou três vezes por dia para que ele tomasse o já mencionado remédio para dor, que parecia água, não resolvia mais. Nessa angústia conseguimos que ele ficasse internado no Hospital D. Pedro, onde tinha feito a cirurgia. Com ele lá, minha irmã mais velha, minha mãe e eu revezamos para tomar conta dele.
Anterior à noite fatídica eu tinha ficado com ele. No dia seguinte minha mãe passou o dia e, ao entardecer fui buscá-la e deixei minha irmã para passar a noite. Retornei para Santa Bárbara com minha mãe. Por volta de meia niote minha irmã me liga (ou mandou mensagem no WhatsApp) pedindo para que eu fosse para hospital, pois nosso pai tinha piorado. Eu falei com minha esposa que estava cansado, não queria ir, mas ela disse: se ela está pedindo é porque deve ser preciso.
Fui buscar o carro na casa de minha mãe e, para não acordar ela, nem acordar minha irmã mais nova (que ainda era menor de idade), tirei o carro da garagem empurrando. Fui em direção à Feira de Santana com minha esposa. Ao chegar próximo a UEFS meu WhatsApp toca, minha esposa só diz que foi minha irmã. Eu peço para avisar a ela que a gente já estava chegando. Porém, a mensagem que ela recebeu já foi sobre o falecimento de meu pai. Só passei a saber disso quando desci do carro na frente do hospital. Dor! Tudo se resume a dor! Outro sentimento que veio depois do choque da notícia, depois do velório, foi ter a certeza de que ele não estava mais sentindo dor. Que ele tinha descansado! Mas nós que ficamos passamos pela dor da perca que é intragável.
Nesse processo tudo é doído demais. E esse desfecho de você ter que contatar uma funerária, escolher um caixão, comunicar aos conhecidos, contratar um meio de comunicação (que em cidade pequena é o “carro de som”), dar os nomes dos familiares para a nota de falecimento. Tudo isso é cruel!

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