Abrace, beije, diga que ama...
Antes de completar 4 anos (13/01/2025) do falecimento do meu pai, repentinamente mais um desastre acontece em minha vida (e na vida de minhas irmãs). Numa quinta-feira qualquer mãe passa mal (não está claro se foi pela tarde ou pela noite). Os sintomas pareciam ser alguma comida que fez mal! Ao chegar de Queimadas pela manhã, passei lá na casa dela, e como de costume, ela esquentou uma comidinha para mim. Mesmo já tendo acertado com minha esposa que almoçaria em casa comi um pouco da comida dela. Nesse momento que estive com ela estava tudo normal. Não relatou nenhum incômodo ou coisa do tipo. E aparentemente estava como sempre a encontrei. Nessa mesma quinta, à noite, ela foi para missa, ainda mandou foto do look para minha irmã que estava na faculdade.
Ao chegar da missa ela tentou comer alguma coisa e não conseguiu, não sei dizer se ela chegou a passar mal durante a missa ou foi após chegar em casa. Só tenho a informação que ela ficou enjoada e não conseguiu comer. Durante a sexta-feira ela continuou enjoada, tomou chá de boldo e chegou a vomitar. Pelos sintomas ela estava achando que foi, de fato, alguma comida que fez mal.
Não comeu direito durante o dia e o corpo só pedia cama. É tanto que minha irmã a deixou deitada ao sair para a faculdade. Como eu estava sem carro, pois o deixei na oficina por contata de uma manutenção de rotina, minha outra irmã, a mais velha, ficou de vir do trabalho e levá-la ao hospital municipal. E assim aconteceu. Por volta das 20h minha irmã chegou, já com a minha irmã mais nova, e a levou para o hospital.
Na triagem, minha irmã mais velha entrou com ela e ajudou nas informações, pois nossa mãe tinha a mania de atenuar o que estava sentindo. A partir do relato o médico solicitou um eletrocardiograma, feito lá mesmo, e após analisar o primeiro resultado, o médico solicitou outro. Entendo esse acontecimento como indicação de que o médico compreendeu a gravidade do que estava acontecendo, porém não recordo de tê-la passado para minhas irmãs. Porém, o médico já informou que ela ficaria internada e aguardaria regulação. Ou seja, algo estava acontecendo e não era coisa simples.
Só fiquei sabendo dessa situação ao acordar, fora do horário habitual, para ir ao banheiro e vi as mensagens no grupo que tenho com minhas irmãs. Por volta das 2h ou 3h da madrugada ela tinha deixado algumas mensagens com essas informações, rindo de incredulidade, pois na nossa mente só seria uma ida ao hospital, no máximo tomar algum remédio na veia e depois voltar para casa.
Antes de sair de casa minha esposa teve a ideia de contactar um amigo em comum, o qual tem a irmã trabalhando como coordenadora em um hospital público do Estado. Informei a situação e de imediato ela já entrou em contato com sua irmã que, prontamente, já respondeu pedindo a fixa de regulação. Ela iria pedir para encaminhar mãe para o hospital que ela trabalha, todavia, esse hospital não atendido a especialidade que precisávamos, no entanto, ela já fez a regulação via Estado para o Hospital D. Pedro, em Feira de Santana (sou grato a eles pelo apoio e agilidade prestada naquele momento de necessidade).
Tudo isso foi acontecendo antes mesmo da mainha chegar ao hospital municipal de nossa cidade. Quando cheguei lá, já estavam arrumando-a para a transferência para o D. Pedro. Minha irmã mais nova, que tinha passado a noite com ela, foi para casa e eu fiquei para ir com nossa mãe nessa transferência.
Não demorou muito e já estávamos dentro da ambulância em deslocamento para Feira de Santana. Ao chegar, dei entrada na papelada do internamento, junto com a enfermeira que nos acompanhou. Houve um tempo considerável até que estivéssemos na enfermaria. Mas, assim que ela foi internada, logo começou a fazer vários exames.
Ela estava, desde quando foi internada em Santa Bárbara, no oxigênio (aquela mangueirazinha que fica próximo as narinas) e isso foi mantido lá no D. Pedro. Sentia um desconforto respiratório que, do sábado para o domingo pela manhã se manteve, aparentemente, sustentável, a ponto de a gente “não ficar preocupados” com isso, pelo menos, não a mim. A situação da respiração piorou no domingo à tarde após a realização do ecocardiograma.
Antes de continuar o relato durante o ecocardiograma, lembro-me de o médico cardiologista ter chegado na enfermaria que ela estava, domingo pela manhã, e comunicar que ela tinha tido um ataque cardíaco (que precisaria fazer cateterismo) e, pela situação dela, ele solicitou um leito de UTI, pois seria mais cômodo pra ela. Sabendo que minha mãe ameniza o que está sentindo, eu acabei complementando algumas falas dela, por preocupação, e o médico me “deu um perdido”. Ele disse que tinha esquecido o oxímetro e solicitou que eu fosse buscar com a enfermeira. Entendi que ele me queria distante para que pudesse conversar a sós com minha mãe. Não sei o que ele falou para ela nesse intervalo de tempo que fui lá buscar o oxímetro e voltei. Ficou certo dela ser internada na UTI ainda no domingo, só não foi definido o horário, pois estavam aguardando surgir uma vaga.
Por volta das 14h do domingo desci com ela da enfermaria para a sala que faria o ecocardiograma. Ao chegar no local houve uma demora considerável, pois a médica estava terminando o exame em um senhor que estava lhe dando trabalho. Nesse momento de espera fiquei sentado numa cadeira, numa sala de espera, ao lado da porta e minha mãe, que não podia fazer esforço, estava na cadeira de rodas que o maqueiro a trouxe, um pouco mais a frente. Em silêncio, troquei alguns olhares e breves sorrisos discretos com ela. Até aí ela se mantinha no mesmo estado. O oxigênio era suficiente para ela estar confortável e “esperta”. Assim que a médica terminou o exame do referido senhor, nos chamou para a sala. Minha mãe subiu na maca e deitou conforme a médica solicitou (deitada do lado esquerdo e barriga para cima). Para evitar que ela se esforçasse muito eu fiquei de suporte segurando as costas dela enquanto ela estava na posição que a médica pediu. Mesmo assim gerou algum esforço para ela, principalmente quando, por duas vezes, a médica pediu para que mainha prendesse a respiração. Isso foi o causador da piora na condição respiratória dela.
Ao voltar para o leite após o exame, claramente ela estava com um maior desconforto respiratório. Tentou deitar-se, algumas vezes, para ver se conseguia dormir. Pediu que eu aumentasse a inclinação do encosto da cama, coisa que não melhorou muito. Sentou-se algumas vezes na cama, com as pernas para fora, posição que gerava uma leve melhora. Nesse momento falei para ela se sentar na poltrona que eu estava, talvez fosse melhor. Ela gostou da ideia e logo veio. Não demorou muito e conseguiu cochilar. Conseguiu tirar dois bons cochilos antes da enfermeira chegar nos dizendo que o resultado do exame (ecocardiograma) tinha saído e ela já teria enviado para o médico, que prontamente pediu para que transferisse ela para a semi-intensiva, pois o leito da UTI ainda não tinha surgido.
A notícia que ela precisava ir para a UTI foi recebida pôr mim com naturalidade, crendo na palavra do médico, de que seria para ela ficar mais assistida do que estava na enfermaria. Juro para você que não me assustei ou fiquei preocupado achando que poderia acontecer o que veio a acontecer. Durante todo o tempo estava crente que o que teria que resolver para ela ficar bem, seria resolvido, e por mais que demorássemos na labuta no hospital, seja 3 ou 4 dias, uma semana que fosse, sairíamos de lá bem e seria mais uma história de superação para contar. E foi o que tentei passar para mainha. Antes de descer, após ajuda-la a se trocar, falei que tudo daria certo, que ela ficaria bem e que na segunda- (dia seguinte) eu e minhas irmãs estaríamos com ela para saber da equipe médica quais seriam os próximos passos a seguir.
Por volta das 18h o maqueiro chega na enfermaria e transfere ela do leito para a maca que a conduziria para a semi-intensiva. Como não pode ter visitas (inclusive ela só entrou com os pertences de higiene pessoal), fiquei aguardando do lado de fora enquanto o médico que estava de plantão na semi-intensiva recebia minha mãe e cumpria com os procedimentos necessários para a chega de um novo paciente. O médico e a enfermeira pediram que eu aguardasse, pois precisava falar comigo antes de eu ir.
Demorou significativamente até a saída dele para falar comigo. A conversa não foi boa! Ele me perguntou se o cardiologista tinha conversado comigo, pois o que ele iria me informar era apenas o que estava no prontuário dela e que ele não tinha tido contato com ele. Informei que não, que o cardiologista não me passou nenhum detalhe e relatei apenas o que ouvi da chegada dele lá na enfermaria no turno da manhã. Com isso, o médico da semi-intensiva me informou que o estado de mãe era grave, explicou o tipo de infarto que ela teve, e disse que ela estava estável no momento que estávamos conversando, ainda falou que mãe estava conversando com todos lá dentro, tranquila, que estava bem. Porém, ela também disse que qualquer alteração de humor dela poderia causar um desequilíbrio e as coisas poderiam ter uma piora, de forma que ele não conseguiria dimensionar o nível. Acho que ele falou mais coisas, no entanto, nesse momento que escrevo, não me recordo mais.
Saí do D. Pedro em direção da casa de Vanessa, minha irmã mais velha, que mora em Feira de Santana, cidade onde o Hospital D. Pedro se localiza. Por conta da fome, decidi parar para comer no meio do caminho e, como não iria aguentar esperar chegar na casa dela, até por medo de esquecer algum detalhe do que tinha acabo de ouvir, liguei para Vanessa e disse tudo, conforme tinha escutado. Eu estava num estado psicológico que não estava sentindo nada. Não sentia medo, raiva, alegria, tristeza, estava apático. Comi um pastel olhando para o nada e pensando Deus sabe o quê! Ao chegar na casa de minha irmã, ela já estava em prantos. Renata, minha irmã mais nova, ainda estava dormindo. Como ela tinha passado a noite de sexta-feira para sábado, e por outras questões, acabou ficando de sábado para domingo no hospital. Então ela, ao chegar na casa de minha irmã no domingo pela manhã, agarrou no sono que levou até a noite. Vanessa me esperou chegar para acordá-la e ouvir as péssimas novidades que eu tinha a contar. Naquele momento, ambas estavam “cientes” do que viria acontecer. Cientes não! Temerosas. Desesperadas com a possibilidade real que se apresentava diante dos olhos. Eu mantive a “fé” de que, por mais grave que fosse a situação, tudo ficaria bem. Tentei argumentar que elas não deveriam se desesperar daquela maneira. Mas, infelizmente, o que elas estavam sentindo era o que acabou acontecendo.
Após passar na casa da minha irmã eu voltaria para Santa Bárbara. Após toda a agonia e desespero da notícia que levei, elas decidiram que não iriam dormir sozinhas e voltaram comigo para Santa Bárbara. Nesse meio de tempo eu estava conversando por WhatsApp com minha esposa, então ela estava ciente de tudo. Ao chegar, coloquei o colchão no chão da sala para minhas irmãs dormirem. E como já era tarde, também fui dormir.
Sabe aqueles clichês de filmes? Pois! Por volta de 2h da madrugada o meu telefone toca –no desespero, Vanessa disse que não aguentava mais notícia ruim e que não queria receber nenhuma ligação. Falei com ela que era o meu telefone que estava nos documentos da entrada de mãe no hospital – minha esposa, que já havia passado por coisa parecida com os avós e uma tia, acorda assustada e olha para mim com os olhos arregalados. Ainda grogue, tentei atender o celular e não consegui. Não sei o telefone travou ou eu que estava travado. Em seguida o telefone toca novamente e eu atendo: familiar da Sr. Maria Marlene de Lima, preciso que compareça ao hospital imediatamente. Reside em Feira? Gente! Tenha certeza, esse é o pior telefona que uma pessoa pode receber na vida. Esse telefone, não sei se há exceções, é para dizer: morreu!
Sem acreditar no que tinha acabado de acontecer, eu teria que dar um jeito para me deslocar para Feira. Minhas irmãs estavam dormindo e eu fiz de tudo para não as acordar. Meu carro ficou preso na garagem pelo carro de minha irmã. E mesmo que estivesse livre, o toque do alarme ao destravá-lo as acordaria. Pensei em pegar o carro dela, mas não sabia onde estava a chave e fiquei com receio de procurar, justamente para não fazer baralho e acabar acordando-as. Por fim, minha esposa ligou para o pai para pedir o carro emprestado e, com medo de que eu fosse sozinho, pediu ao cunhado que fosse comigo. Então, saí pelos fundos da casa e encontrei com meu sogro que me deixou na casa do meu concunhado. Ele foi dirigindo até o Hospital D. Pedro, que por infeliz coincidência do destino, foi o mesmo lugar que meu pai faleceu. No trajeto eu senti os piores sentimentos que se pode sentir após uma ligação dessa (ainda batendo aquela ínfima esperança que poderia ser algo que não fosse a morte dela). Queria gritar alto, mas até hoje, mesmo em um dia desses que saí para pedalar só, não consegui, não consigo! Existe algo que me trava, que seguro o meu grito.
Chegamos no hospital, nos identificamos e esperamos ter o acesso liberado. Uma enfermeira chegou, descemos com ela e ficamos aguardando o médico que estava de plantão na semi-intensiva (que já não era o mesmo que tinha recebido mainha). Ele apareceu, nos chamou para a sala dele e começou a conversar comigo e fazer perguntas (preparando o terreno). Então ele disse: ela começou a reclamar de desconforto respiratório. Aumentamos o oxigênio. Mesmo assim ela continuou reclamando. Medicamos ela para tentar melhorar o quadro. Usamos um medicamento que só é possível usar 200 ml/h. Mesmo assim ela não apresentou melhora, então decidimos entubar (gente, quando eu escutei a palavra entubar, meu coração, que estava extremamente apertado, sentiu um alívio tão grande, achando eu que o motivo da ligação teria sido isso; avisar que entubaram ela. Até porque se fosse isso, significava que ela estava com vida). Em seguida o médico disse: porém, ela não resistiu e veio a falecer! Caralho! Que dor! Que desespero! Das várias coisas que passaram pela minha cabeça naquele momento, uma delas foi: como contar isso para minhas irmãs ao chegar em casa?
Decido parar esse relato por aqui. E hoje, data que faço essa publicação, completam exatamente dois meses e um dia que minha mãe não está mais fisicamente presente entre nós. Algumas coisas já aconteceram de lá para cá. Esses dias foram e estão sendo muito difíceis. Só nos resta uma coisa: continuar vivendo!

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